terça-feira, 20 de janeiro de 2009

M*O*M*E*N*T*O . . . N*A*D*I*A

. .
"Atrás de uma grande mulher há sempre um 'gago apaixonado' " ° ° ° . . . . O O O O

_____________________

Este poema () é uma resposta ao belíssimo poema "AS COISAS" do grande JORGE LUIZ BORGES a quem presto aqui minha humilde homenagem:

AS COISAS* Jorge Luis Borges

. A bengala, as moedas, o chaveiro,

A dócil fechadura, as tardias

Notas que não lerão os poucos dias

Que me restam, os naipes e o tabuleiro,

Um livro e em suas páginas a ofendida

Violeta, monumento de uma tarde,

De certo inesquecível e já esquecida,

O rubro espelho ocidental em que arde

Uma ilusória aurora. Quantas coisas,

Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,

Nos servem como tácitos escravos,

Cegas e estranhamente sigilosas!

Durarão muito além de nosso olvido:

E nunca saberão que havemos ido.

* em tradução de Ferreira Gullart

. . .

MORTOS NÃO GOSTAM DE ABSOLUTAMENTE NADA

para Nadia XX

, mesmo no futuro do presente

encontro letras e angustias

riscadas nos muros

( e retorno sempre coberto com o musgo do tempo),

mas ainda assim manterei cada palavra

e cada beijo.

Manterei cada memória líquida deste amor

que procuro a deslocar-se aos

sustos próximo a mim

(diante da minha janela)

e que se faz inevitável ao olhar.

.

Tuas palavras

(gritos e sussurros)

tenho-as ainda em mim

e ainda assim

me fazem tal falta,

de maneira que não há

sonhos nas noites,

você não está aqui

em minha cama

e meu coração te chama,

não ouves(?)

.

Sim eu sou um desses que

caminham à esmo pela noite,

um desses que um dia abjurou

diante do sinal vermelho

como quem abjura diante da lua

e nas mãos

( e a única mão constante

é a que cande presságios e as cores

ausentes das palavras feridas

entre a caligrafia e a pena)

trago este grito azul

que te envio nas asas de um querubim

e me devolves num cantar direito de criança.

.

(recolho o grito)

.

Eu, agora um menino atrás do amor,

escalei a montanha

(the fool on the hill)

de lugar nenhum e chove

e corto a chuva com este grito azul

que trazia nas mãos e que rolou morro abaixo.

Pois cairei junto com a tempestade de estrelas.

estarei em cada rasgo deste céu noturno,

para que na manhã

ilumines parte de minha alma,

tu que pareces refletir a luz do sol.

Sei, já posso morrer,

mas mortos não gostam de chuva.

.

.

.

_____________________

0

0

0

0

"HAIKU" MAL COMPORTADO (clique na imagem para ampliá-la)
0 0
0 0 0 0 __________________ 0 0 0 0 . . . . . .

FOTO: CLARICE VAZ, Central Park, New York (dezembro de 2008)

A FLOR BRANCA DO AÇÚCAR
Para Nadia XVIII

Leio Mandrake e Lothar.

Leio Fantasma,

me faz bem essa simplicidade deliciosa

do vulgar, do instante,

do nada.

Barba por fazer ,

só e suado

cheguei da rua

(Hancock e sua Cantaloupe Island me acompanham agora)

sinto o corpo a desistir

nada comi hoje.

Café, cigarros e

alguma bebida, apenas.

Agora

(de olhos fechados)

a recordar sorrisos e olhos, verdes,

que se desfazem na sombra,

passageiro da flor do AÇÚCar, serENA: AÇUCENA.

Desejando papoulas,

ou outra flor qualquer,

(flor do sêmem do enforcado, por exemplo,

colhida na noite de lua cheia,

arrancada à terra pelo cão negro,

evitando seu grito humano demasiadamente humano

e também assassino).

Da fée verte, desejando apenas

suas asas de mandrágora e sangue

e pintar o contorno de seu corpo

(ou),

desenhar

(no desenho um desígnio, abstrato e destrutivo)

à crayon o negro de sua pele clara (ou vice-versa),

o carvão dissoluto dos corpos adormecidos à sombra

do silêncio doloroso da eternidade.

Riscando na ardósia de seu corpo

estas letras

( também verdes )

que hão de desaparecer

no gesto efêmero da carícia.

. .

“Quando acariciei o teu dorso,

campo de trigo dourado,

minha mão ficou pequena

como uma flor de açucena...”

................Thiago de Mello

. .
. .
.

.

ENQUANTO ISSO

(NA CABINE DO “VAGÃO DORMITÓRIO”)

para Nadia XVIII

, pela janela do trem

revela-se uma paisagem

e as cores alongadas ( e o cheiro de sangue ) da ferrovia,

que reflete a luz do sol branco de outubro, e só.

Nunca dores nem casas de paredes caiadas

afogadas na dor,

apenas este deserto branco

e cadeiras de cana-da-índia

nas varandas.

.

O desespero estático em Mosul

e nas ruínas de Sírio

na cidade de Nínive *,

igualmente, nunca é revelado.

Tampouco

a Grande Mesquita Vermelha,

nem a Mesquita de Nabi Jarjis.

Ninguém sabe o que se passa no Iraque,

aqui apenas esta paisagem,

este cheiro e o sol branco...

.

Você me adverte, eu paro para ver,

eu olho, não sei bem o que é...

Sim,

nosso trem

(de prata)

agora atravessava a noite.

E eu jurei sob aquela lua siderúrgica amar-te.

No sinal vermelho,

que levarei para sempre

como um sol tatuado no peito,

minha pobre mãe chorou comigo ao telefone,

e meu coração

cigano não via razão

naquele destino moldado pelo sentimento

(“sentimentos são como

lesões com nossa própria arma,

desencorajando-nos de tudo” acreditava então).

E para você eu ainda não tinha um nome,

nem endereço, nem telefone.

.

Ainda hoje procuro desvendar o enigma

(em nosso pequeno e

confortável jardim de inverno)

que enganou meus passos.

Sim, continuaremos a viajar

para encontrar nas letras desta

dignidade rasgada,

um amor que possa ser escrito

sossegadamente

nestas paredes caiadas lá fora.

.

.

___________

* E aqui em Nínive já observei / Mais de um cantor passar e ir habitar / O horto sombrio onde ninguém perturba / Seu sono ou canto.” Ezra Pound

.

TEU NOME

para Nadia XVI

Neste cenário impossível

que é teu corpo,

à sombra das letras rubras do teu nome

(plenas de inquietude),

desejos

são jogos flamejantes.

.

.

.
CANÇÃO A UMA MESA NUM CANTO
 
para Nadia X
 
, no canto uma mesa desocupada, 
palpites e carícias. 
Sentamos ali, 
o rio do tempo, incólume escoa
no verão, lá fora. 
Eu calado te desejando consideravelmente
(vestida de vermelho)
tua(s) bela(s) boca(s). 
Bebes da taça rubra agora
sem julgamentos e tão próxima.
 
Eu não como, tampouco bebo, 
apenas murmuro a canção
do nosso amor no futuro do presente,
naquela mesa do canto.
E as begônias ( que te dei ) te invejam ainda.




.

AINDA HÁ UM SONHO, SIM AINDA HÁ

para Nadia XI

, no negro da foto evasiva

teu sorriso branco

é um poço e igualmente um mistério

e nele me reconheço ainda mais,

neste que é meu próprio espelho

(espelho da minha alma e da tua).

Amigos eu distraio com um jornal de ontem

(que não inclui compreender este amor presente),

mas somente eles, não constroem meu sonho,

meu sonho quem constrói é você

(e ninguém o vai destruir),

este contínuo e belo sonho

(um belo caso de amor)

que trago nas mãos tremulas,

pintado com as tintas

e as purpurinas mais vermelhas

que a vida me oferece.

FOTO: CLARICE VAZ, Maryland, EUA (dezembro de 2008)

.

NA TUA INTENÇÃO

para Nadia XII

, intenções lascivas fluem

no lado esquerdo do meu cérebro,

um esvaziar-se me consome a existência

que convulso meu corpo expele

como quem cospe dentro da noite.

Devorando-me as intenções,

observando o vácuo de desejo

que posteriormente me rasga e ninguém vê.

Celebrando o futuro que se encontra em ti.

Por todas as noites, por todo esse tempo,

também planto a fruta proibida, impunemente.

NO TEMPLO DE KHAJUHRAHO: EU E TU

ou

DA BELEZA DE TEUS POSTAIS

para Nadia XIV

, tuas mãos,

mergulhadas profundamente nas chamas

(por toda parte)

indiscretas da paixão,

entregam-me à paisagem ocre

( e nas mãos de Deus Jeová).

A quem se ama deve-se recompensas e vinhos”,

me dizes num sussurro.

No perfil branco do linho teu mistério de mulher

(que se banha),

bela mulher madura

modesta mignon

(meu amor terminal),

teu perfume

(essa tua identidade úmida)

doce (café),

combina perfeitamente com a

morenez fresca de tua pele.

Sei por que provei do teu corpo

e és igualmente doce.

( Ataif )

, nestes cartões recortados

(testemunhos atávicos da arte e do amor)

fundes sagrado e erótico. E ainda mais,

com naturalidade me dizes: “não há nenhuma hora

ou ordem nem o tecido venenoso do tempo, entre

o abraço,

o beijo,

a carícia.

Um risco de prego na parede,

uma Tamareira.

Marcas de dedos

(dedos que extraem os diversos sons

dos instrumentos de sopro e corda),

mãos que golpeiam a pele dum tambor

(atabaque).

Qualquer coisa pode ocorrer a qualquer hora

porque ao amor não importa

nem um estado de desejo

nem a ordem nem o tempo.”

Tipos inesquecíveis me apontas também,

Frida kahlo, Florbela, Picasso, Marilyn,

Lennon, Bacon, Gogh

(“La misère ne finira pas jamais”),

Retratos, à contra luz, da vida.

Capuccinos, calças novas de linho branco,

esculturas do Templo de Khajuhraho,

velas, biscoitos amanteigados

(de Aix-en-provence),

som de cavaquinho, sushi,

peignoir de seda

(um toque de classe),

lareiras e manuscritos

(cartas de amor?),

MONUMENTOS À POESIA.

MADRUGADA DE MUSSELINA

para Nadia IX

, não, eu não fabrico este carmim

( uso um lápis de cor)

para colorir teu corpo

(e dominá-lo, frente a este

amor: vaga em mim)

com a cor certa de toda coisa.

Você (solar) me abraça,

brinca comigo, me beija, me excita

teu sorriso

( como o de “Amanda”),

me ilumina todo.

Flui minhas/tuas fábulas de amor

(que, em breve, num gozo profundo

e dolorido como todo gozo,

desaparecerão como

bolhas de sabão,

mas sem aquela pompa)

Sim, bebemos do vinho do encanto

(um amabile bianco)

e , novamente,

em teu pedaço de madrugada

vestida de musselina:

as alucinações,

desejos ardentes,

palavras obscenas,

encorajam-me a tentar outra noite feliz

(feliz como a necessidade de velejar),

encorajam-me a tatear

este pequeno paraíso que me prenuncias,

fabricando APELOS ÚMIDOS SEM LIMITES.

Desta manhã, o que farei...?

NO BOSQUE DE MABIRA

para Nadia

, o azul do papel de seda

( da pipa de papel )

feriu o céu laranja dilacerado

de um fim de tarde,

é a vida fazendo seus rabiscos

(criptogramas)

na parede desta rocha rejeitada,

desta caverna líquida,

que trazemos na alma

( museu inolvidável do sentimento).

Mas você

AINDA POSSUI ESSE PODER

do vôo feliz

(vôo que legitima as gaivotas)

acima dos oceanos

(sempre à esquerda deste que vem

emprestar ao dia sua volubilidade e do

qual estás vestida: o sol),

acima das árvores e das folha das árvores

(“, e do cravo, e da rosa

debaixo de uma sacada, o que foi feito?”),

ESSE PODER QUE VEM DE EROS.

Embora, ainda, o pássaro de coração tirano,

pousado na borda da esfera, espreite

(ausência total de cor em seu presságio):

Nunca mais! Nunca Mais!”

Nós o ignoraremos

e as águas de um outro outono boêmio

virão molhar nossos pés,

(fluirá nossa fábula de amor)

e beberemos novamente do vinho tinto

(um Bourgandelle)

do encantamento

e objetos mágicos deslizarão próximos a nós

no bosque de Mabira

em Uganda

(onde floresce a árvore do sexo),

FUGINDO VIRÁS A MIM.

DAS ONDAS O SEU AZUL

para Nadia I

, toda vez que as ondas adquirem esse azul,

realmente me livram por completo

dos meus sonhos e desejos

(contidos em frágeis barcos de papel),

mas minha alma de velho andarilho não pára.

Finalmente tinha começado enfim,

mas esta minha alma de velho andarilho

(mais sutil que louca)

prossegue seu itinerário.

Avanço muito mais saudável sem você, agora.

Porque às vezes você se excluía.

Mesmo ao meu lado,

você não mais me mantinha em equilíbrio,

não conseguia mais me aquecer,

e para mim, um dia sem “minha amiga

era um dia na vida sem nenhum valor.

Como pássaros fáceis e gratuitos

você criava uma tal resistência que evitava

o som do passos na calçada

enquanto atravessa qualquer praça do mundo

(piazza dell'Urze, por exemplo).

Bem, terminava ali uma ilusão,

como cartas íntimas

terminam nos livros

e os livros nos joelhos.

E toda vez que as ondas adquirem esse azul,

realmente me livram por completo

dos sonhos e dos desejos

(contidos em frágeis castelos de cartas).

Mas minha alma de velho andarilho não pára.

ORAÇÃO (II)

para Nadia II

Você

minha Ninevah Garofano,

minha Virgem de Granada,

mostra- me

(eu menino)

a vertigem da flor do cravo,

que tenho necessidades de pássaros.

Madona del Garofano,

aqui estou eu em pé à sua frente,

um menino e seu manto azul

de tecido leve, transparente

e tempestades

e tempestades.

Amém!

I CAN’T GET STARTED*

para Nadia IV

Sei que te lembras das nuvens

e das estrelas,

como notas porosas do

contra-baixo de Mingus,

acima, nesta imensidão.

Sei que te lembras do mar

e das estradas que nele iam dar

e eu a falar-te

com voz baixa durante a noite

(e no coração também notas

em stacatto e porosas sussurrando

a sagrada canção da infinitude)

e teu corpo oscilando como o mar,

enquanto a noite devorava automóveis lá fora.

Hoje sabemos: o sol deste dia não é eterno,

não obstante, então, podíamos ver naquilo tudo sentido.

MINHA CALIGRAFIA É PÉSSIMA, NÃO TE DISSE...?

para Nadia V

Na obscuridade

da estrada deserta

(vento fresco),

uma luz trêmula ao longe. O bastante para me alegrar.

Lá, estava a entrada do que poderia ser o céu

ou poderia ser o inferno (pouco me importava).

Eu, um poeta (?), ferido em meu amor próprio,

no verso do lenço de papel, rabisco um verso,

outro e mais outro

(minha caligrafia é péssima),

versos ve(ne)nosos, dissolutos como só poderiam ser

os versos de um poeta (?) indigente.

Em seguida o faço em pedaços,

dilacerando talvez minha única oportunidade de entender este paraíso.

(Se ao menos tivesse anotado com cuidado...)

Mas, dos destroços da inocência não se constrói uma oração,

sei disso.

Ela lá, dançando todas as danças

( na ordem em que se lembrava ).

Dançando, como para esquecer dos segundos;

das surpresa; da vida;

dos álibis que temos

que lançar mão.

(Fios de um perfume doce e morno suspensos no ar

- poderia tocar neles se quisesse -,

perfume do melodrama),

Apenas uma oração eu conhecia então,

uma oração onde eram celebrados

os lugares ruins

por onde meu corpo,

tatuado em azul pela ausência, passou.

Lugares onde gemidos e loucura brotam das paredes,

decoradas com estrelas desonestas

de papel alumínio,

colinas tristes, emoções e incertezas.

Lugares que, de forma alguma, podem ser explicados,

onde eu um dia fui parar, mas,

o único lugar para um poeta (?) ferido em seu amor próprio.

Ela me põe encantando com:

a) sua face (fascinante);

b) e a música;

c) e o brilho úmido no telhado;

d) e a taça de espumante (rose) na mão.

Todos nós só somos cativos de nossas próprias inabilidades.

(tento explicar-lhe, ela sorri e prossegue dançando)

ela pode fazer tudo o que quiser por aqui,

mas sei: NUNCA PODERÁ IR COMIGO!

Desejei profundamente encher esta mulher

de jóias, poesia e gravidade

(todo o poder de Eros coagulado, em azul de metileno,

sobre estas folhas sem viço),

mas letras sobre um papel não resolvem desejos.

Ainda assim,

sobre o verso do lenço de papel verde

anoto aquela mentira

(minha caligrafia é péssima, não te disse...?):

Poesia é um prazer a que os deuses da luxúria nos condenaram.

Em seguida o faço em pedaços.

BLUES DO POETA DE RUA

para Nadia V I e para Omlad Aviaras

Eu só desejava

(e desejo é a música da inocência)

saber para que lugar você

levou o fardo da tua existência

esta noite.

Provavelmente te encontras

num desses bares

barulhentos e enfumaçados,

(como eu...)

Que restou de nossas famílias?

Que prazeres nos trouxeram até aqui ?

O prazer efêmero de alguém sentado ao teu lado

por algumas horas, te ofertando a chama débil

da amizade na concha da mão?

Apenas esse o nosso proveito...?

Sei que você (como eu)

está lá, sentada e só,

passando os dedos delicadamente

na borda arredondada do teu copo

(e este já deve ser o quarto ou quinto...),

como quem acaricia a pele de um bebê,

sentindo o veludo sutil do vidro,

olhando para as cores desmaiadas

das vitrines do outro lado da rua

e pensando em Van Gogh

(as imagens vindo a você como num sonho),

ou em Hopper

(o mais provável).

E o tempo, esse demônio dionisíaco,

de focinheira colorida,

perpetuando mistérios

e executando tempestades.

Você se pergunta como eu passo minhas noites,

eu podia te responder:

“ ... tomando vinho e escutando os ventos de outono! ”,

mas é mentira,

meus pensamentos em aflição

( e a aflição é a fortuna em forma de música e poesia)

permanecem com você.

A estética do poeta de rua

(que anda só):

sedativo contra ausências e tragédia.

__________

* ...este singelo poema é uma homenagem aquela que, por oito longos anos, vividos intensamente em todos os sentidos e aspectos (para o bem e para o mal, na dor e na alegria etc. etc.), foi minha colega, amiga, namorada, amante, resgatadora, esposa, confidente, inspiradora, instrutora, conselheira, incentivadora, interlocutora perspicaz, protetora, mãe, fada madrinha e bruxa-má, e ainda outras coisas das quais não sei, mas sei que dela proveio... O que é incrível é que durante todo esse tempo não escrevi nada para ela (simplesmente não era possível, estava com as mãos ocupadas**) a recíproca não é verdadeira, ela escreveu muita poesia para mim ( as tem guardadas por motivos óbvios ) entre elas um fantástica POESIA/TEOREMA chamado "A MÃO E O PEIXE", que ouvi maravilhado uma madrugada recitado por ela mesma a mim via telefone... Vejam vocês!

Agora dois anos e cinco meses depois de nos separarmos e nos separamos ainda nos amando ( em todos os sentidos e aspectos também) e eu ainda a amo, que fique claro - se não, como explicar a incessante troca de gentilezas e presentes por todo este tempo? - simplesmente ACONTECEU...

Poesia não existe sem revolta mesmo!

Estava te devendo isto, beijos vários!

__________

* * ...em aplaudi-la, é claro!

0

0

0

0

0

0

0

ÀS 14:56: CONFISSÕES...

para Nadia XV

Quando te olhei nos olhos

numa tarde gloriosa,

teu olhar castanhos

estava vestido

de uma sombra remota,

de uma tristeza,

de uma melancolia,

um mistério

(que quando de óculos de sol

ampliava-se por todo teu belo

rosto anguloso)

que nenhum fado

poderia traduzir,

nenhum blues...

Traduzir-te

foi, a partir daí,

minha principal ocupação

tous les jours.

E quando você se foi

nunca mais ouvi blues

(arrumando a sala)

em nossa casa.

Um dia você me liga,

não sabia se vestia de mel

ou de verde iridescente

teu olhar.

Meu entusiasmo pelo verde

te contagiou e convenceu.

Hoje trazes o olhar banhado nessa luz

do dia que desfruto, mas só eu sei:

A SOMBRA REMOTA AINDA LÁ ESTÁ.

0

0

0

0

.

http://www.youtube.com/watch?v=RtMx13HJMhU

sábado, 10 de janeiro de 2009

RITUAIS QUE OS CREPÚSCULOS IGNORAM
para Nadia XXIII
, teu corpo, muito próximo, transpira entre a parede e o abandono, durante esse intervalo de tempo conhecido como noite.
Agora, um raio de sol cinza revela e ilumina pequena nuvem de poeira em círculos e tremores. Eu, embriagado pelo licor extravagante da luxúria (cassis?), danço no mais extremo da noite (que é quando o sol põe aquela legenda laranja no céu), a dança selvagem das circunstâncias.
Um Serafim, coberto de plumas e paetês (provavelmente) foi quem arquitetou este jogo sob o sol frio de outono que para você não é nunca antigo nem cinza na cor.
Você sabe que gosto de você. Você sabe que não sente minha dor e de como gosto de você, te disse isto num sonho. Mas de toda dor, você não sabe, você não ouviu toda minha dor. Não tens tua face sobre a minha dor. uma velha canção dos Beatles (“And anytime you feel the pain, …”) foi o que você ouviu, e é só o que tenho para ti agora: os rituais que os crepúsculos ignoram.
.
.
.
.
Minhas sincera homenagem!
. . . «Si Khalil ouve esta voz que se ergue na noite. É a voz de um povo que desperta e que cedo vai estrangulá-lo. Cada minuto que passa o separa da sua antiga vida. O futuro está cheio de gritos. O futuro está cheio de revoltas. Como represar este rio transbordante que vai submergir as cidades? Si Khalil imagina a casa desabada sob o pó dos escombros. Vê os livros aparecer por entre os mortos. Pois nem todos serão mortos. É preciso contar com eles, quando se erguerem com os seus rostos sangrentos e os seus olhos de vingança.» . [in A Casa da Morte Certa] . . «Quando Samantar saiu da gruta, o sol levantava-se por cima do mar, fazendo explodir debaixo dos seus raios mágicos todas as cores da paisagem. O verde dos palmeirais, o ocre das extensões arenosas, o azul do mar, apareciam em todo o esplendor da sua frescura primitiva. Era quase um chamamento sensual, uma exortação ao amor que Samantar sentiu com uma indizível felicidade. Então, fez vaguear o olhar maravilhado por toda aquela beleza cintilante debaixo do sol, como uma oferenda àquele que simplesmente quer viver e que a ambição de um homem quase destruíra.» . . [in Uma Ambição no Deserto] . . .

PEQUENA CANÇÃO (sem termo) A UM CHAMADO “ERNESTO”

.

Floresceram canções brancas que semeaste com alvaiade

em nossas almas e foste embora, era outubro e outubro é sempre

É o outubro em que eu vivo, dias de tudo e de vaidade

E tu, então, um sorriso na alma e um sonho de flor carente.

.

É outubro e as cores se renovam, mas há um azul a inventar,

o azul de um grito que nada diz da luta em toda cantiga

nem da flor carente, nem das canções brancas a germinar

apenas diz das pétalas do desejo que tortura e castiga.

.

Destas pétalas do desejo, de uma só cor - uma cor só delas -

nasce o precipício (que procuras sob o sol ao qual pertences)

e nasce o mundo nu, pleno de justiça e igualdade, que exalas.

.

Oxalá, o aguaceiros de desejos, sonhos e fortuna que alcances,

- a renovar aspirações de fraternidade que nos corações instalas -

vertam do silencioso mar da morte traiçoeira que afinal vences!

.

.

ORAÇÃO DAS DIVERGÊNCIAS

Se o Profeta Gentileza

seria um bom presidente,

Nunca se saberá...

Mas, seria um bom presidente

o Profeta Gentileza?

Um grande ballet deu “El sombrero de tres picos

(de Falla)

Mas ao fim, o som, que também traz

a oração das divergências,

se rende ao silêncio,

que flutua na energia destrutiva das escadarias,

como o pó à luz do sol.

O sabão em pó azul também pensa estar colorindo

a capa de chuva de plástico azul

(enquanto cuida de lavá-la),

pensa possuir esse poder de mudança.

Colorir oportunidades, oportunidades de colorir...

E você dando nomes aos bois e as cores, cores e bois,

mas cada um de nós

(tu e eu, em nosso íntimo)

tem todas essas pessoas de cera

para proteger do calor!

Pessoas que

(como nós, eu e tu)

se deterioram se não o fizermos.

A PALAVRA “FODA-SE

, durante o dia, foi quando o muro desabou

(foi derrubado na verdade, vimos na televisão),

das janelas dos edifícios do mundo um grito.

A liberdade de óculos,

porque míope

( a esperança também, segundo Rodrix),

havia chegado durante aquelas

horas mornas da tarde

(julgamos).

Mas, assim que o muro foi derrubado,

surge a nau dos insensatos

à tosquiar a lã vaga das promessas

daquela velhota de óculos.

Uns tipos surdos e mesquinhos,

Metidos em fardas de papel crépon

(verde oliva)

girando no ar em seus vôos cegos

(insetos em inútil busca de luz),

vôos que fizeram nosso pesadelo naquela noite

e em todas as outras anteriores

por mais de vinte anos.

Por mais de vinte anos,

também, tive minha caneta arrancada das mãos

por alguém que em seguida rabiscou

com ela a palavra “foda-se

atrás da porta do banheiro público

(onde me encontrava escondido, fumando talvez).

DA EXISTÊNCIA DAS CORES

As cestas do açafrão e seu ocre,

(o ocre das reminiscências);

os eventos religiosos

(minerais e metálicos);

a eletricidade estática das orações;

o carnaval.

O piano nas saletas

penetrando as crianças nuas, nuas

em forma de som;

a dança.

O fio do desejo queimando os pés

dos meninos acrobatas,

ágeis e ilógicos;

aquelas vozes em uníssono

(esculturas de luz, eloqüentes)

e ondas e fulgurações

tingindo de preto o uniforme do jóquei,

e ao branco oferecendo a fatalidade,

não podem ser apenas

porque somos sábios.

domingo, 14 de dezembro de 2008

NO AI COSSA / QVE MAS DISPIERTE / QVE DORMIR / SOBRE LA MVERTE / AÑO DE 1699. ("Não há coisa que mais desperte do que dormir sobre a morte.") inscrição, registada na parede da igreja Sta. Maria Magdalena em Villamiel Extremadura, Cáceres, Espanha, foto de Angel Hernández.
. . . . . . . . .

UM PAR DE BOTAS E EU

Para o “tarado” na cadeira-de-balanço

, uma menina,

excelente menina

(como podem ser as garotas do subúrbio, aliás...),

deixei, uma noite, esperando por mim

no Lins.

Alma e curvas

diante do espelho

( em sua caverna de silêncios e azuis desbotados*,

... ou seriam e verdes?

Não a “caverna” de Platão, em sua “catcaverna”, quero dizer ),

pacientemente, penteia

( Dorotéia - rodrigueana - tece a teia,

pacientemente ...)

seus longos cabelos negros,

com uma escova verde de cabo quebrado

- espólios (sub)urbanos -

sonhando um amor de (foto)novela...

Mel da preguiça macunaímica nas veias

(também nas minhas).

Mulher-gato, me odeia,

MAS É ELA A PESSOA DE PLÁSTICO (verde)

QUE SE DETERIORA.

Não leu Sartre.

a) pensa; b) come; c) ri; d) enrubesce;

e) mija; f) sonha...

Sem náusea, procura viver sua existência

INTENSAMENTE

( isto há anos ).

Uma menina,

excelente menina

(como podem ser as garotas suburbinenses),

deixei um dia (72) esperando por mim

no Lins,

escrevendo roma de cabeça para abaixo

(com o indicador direito,

no vidro embaçado da janela),

para aprender a amar ao contrário.

__________

* Jovens nus dançam ao som de Gymnopédie.

sábado, 22 de novembro de 2008

EQZMS

, o anil malévolo

vendia-se (em pequenas quantidades)

no grande magazine inglês,

e a menina (com seus cachos loiros) o havia comprado

e saíra feliz sob a chuva fininha,

pensando no sal, branco e alegre do sol nas ruas,

que continha sua própria existência cotidiana,

cotidiana,

cotidiana.

(mas ela não sabia disso, nunca saberia...)

Guarda-chuvas recém-abertos cantavam em uníssono

Walking In The Rain”...

(“Feels like I'm walking in the rain

I find myself trying to wash away the pain 'Cause I need you to give me some shelter 'Cause I'm fading away And baby, I'm walking in the rain”)

... (em ritmo de samba canção)

e a chuva (com seus dedos líquidos) tamborilando

no teto dos carros estacionados

(ao correr da calçada)

e o som que se ouvia era (a) amarelo,

(b) vermelho,

(c) verde.

(d) etc.

e causava nobres sensações (e delírios, talvez)

nas senhoras burguesas que passavam,

mas nas sensações nobres, jazia sempre

o sangue fresco das palavras rubras

nunca ditas.

(Também é verdade que os grandes pés invisíveis

do cadáver roíam, a céu aberto, o jornal que os cobria,

bem na foto do jogador de futebol,

mas ninguém ligava,

chovia...)

Nesta tarde

pedras, flores, gatos (ou vice-versa), pobres e impertinentes,

conduziriam a estranha e surpreendente "alquimia" das frutas.

“Alquimia”, essa doença crônica da pele das frutas.

“As solas dos sapatos / limpas / De andar na chuva”

Jack Kerouac

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

POPOEMA VISUAL
Da série: " ARQUEOLOGIA DO PRESENTE - OBJETOS PERVERSOS I " Este "objeto" está em exibição no THE MUSEUM OF TEMPORARY ART, na Austria e pode ser visto aqui:

The Museum of Temporary Art

sábado, 11 de outubro de 2008

“ DE UM-TUDO NA ESTAÇÃO DA CENTRAL

Crianças esquálidas correm e esmolam por ali.

Também um cara vestido de palhaço, um camelô.

... um bêbado e um ladrão lá

(e um travesti e uma puta)

e ainda os quatros elementos e o som e a saliva

(e a saliva e o som).

Muita gente, muita confusão,

mãos e olhos e ossos negros,

que não dizem nada.

Só se experimenta a verdadeira dimensão da solidão

( esmagadora e absurda ),

na estação da Central, às 18 horas de uma quarta-feira.

 

Longe, bem longe dali, homens de negócios

bebem seu vinho com os homens da religião

(qualquer pessoa de um “certo nível” é suspeita,

e há muitas delas neste mundo),

e eles acreditam que vida é uma anedota de salão,

( sobre a pele - negra - tatuada do muro,

os insetos riem-se deles.

E de nós também, enfim...)

mas eu e você sabemos: NÃO É!

E esse é nosso destino.

(a) Crianças falam sem entusiasmo;

(b) O cara vestido de palhaço, reservadamente,

fala ao camelô de suas recentes despesas;

(c) o bêbado fala ao tempo;

(d) o ladrão fala com bondade às crianças.

(o travesti e a puta não se falam)

(e) “Ninguém conclui que há muito aqui estão?”

 

De um-tudo na estação da Central,

“O que eram no princípio?” Assegura esta visão...

De onde vieram todas essas mulheres e crianças

e palhaços e camelôs e bêbados e ladrões

(e travestis e putas)?

Quem eles eram, antes disto?

Brincaram de ver bichos nas nuvens?

Os empregados, sabemos quem são, estão de pés descalços

lá longe, na distância fria do subúrbio,

tentando dormir em meio a gritaria dos gatos e do casal no 311

(e o vento agora começa a uivar nas frinchas da janela).

Neste dia que (desgraçadamente)

precisa ser como outro qualquer,

de um-tudo na estação da Central.

Na estação e em todos os lugares,

e em todos os lugares nós estamos,

eles estão...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

EXCREÇÃO

(ou EXCRECÊNCIA ORNAMENTAL ? *)

à Mello Neto e Gullar

Atirei longe

o velho baú

laranja

do João,

................( - Algumas palavras caíram no chão?

..................- É provável.)

sem o menor pudor,

nem de escrever,

nem de cagar.

Até por que,

como disse o outro,

palavras não fedem nem cheiram.

________

* como dizia Leminski