, um arco-íris derramando canções
em minha janela
(vestígios do dia)
insondáveis canções diurnas
melancólicas e efêmeras,
apenas um grito num mundo flutuante
(todas as minhas sutis fantasias
nos ombros deste grito)
II
Canto e batuco e batuco e canto no elevador
ritmos para alcançar os azuis dos céus urbanos
por ter um dia acreditado que para lá iria
(“... compro um piano ou faço um fudge?”)
III
Este anjo menino que toca
com seus sacrossantos pés (de anjo)
a terra, pelo prazer de suas texturas,
dança no absurdo encarnado
de archotes e sambas-canção
(embalados nas tempestades de outono)
IV
Também anseio canções assim
que ecoem na carne e sangue e ossos
e ossos e sangue e carne
como um velho at-tabaq aflito
arraigadas na realidade,
na fraquesa humana:
orgulho, vaidade, preguiça, avareza
inveja, raiva, luxúria...
Gosto de canção bonitas
tribais e pantanosas
que me digam coisas terríveis
(notícias más
são sempre mais suportáveis.
em uma boca bonita)
Fechei os olhos, lá está:
um menino descalço
caminhando na praia.
Aquela renda líquida devorando-lhe os pés
e apagando-lhe as pegadas,
não devia ser justamente o contrário?
Ou é como deve ser a caligrafia de Deus
Ao longe uma única vela branca.
Branca e solitária
naquela imensidão turquesa sem sentido do mar.
Bem, isso é tudo.
“Tira esse pé da parede menino.”
E a sola do sapato carimbada na parede
da varanda era como fazer poesia
de uma forma muito serena,
mas muito assustadora,
mais tarde perceberia.
“... você vai fazer quinze anos, já é um homem!”
Mas preciso dessa parede,
necessito dessas marcas.
O avô em seu quarto
como que sentado à sombra
das asas de um Serafim,
olhos tricotando o ar,
Saint-Saëns na vitrola,
Em sua face não há tristeza
apenas o que já havia esquecido:
a parede da varanda,
o carrilhão da sala de jantar,
duas rosas, postais cheios de palavras
e um copo de vinho
(o silêncio encheu o copo).
Bem finalmente o silêncio.
O que eu estava dizendo mesmo?
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